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Maria Eloá de Souza Lima
é escritora goiana, mora em Jataí, cidade de 85.000 habitantes no
sudoeste do estado de Goiás, a 327 quilômetros de Goiânia. Autora de
três livros: Serra do cafezal (retratos e lembranças), Serra do cafezal
2, (outros retratos, outras lembranças), dois volumes que traçam a
história da ocupação do sudoeste goiano empreendida por desbravadores
que vieram de Minas Gerais (como se pode observar pelo título, trata-se
de livros sobre as origens e memórias de uma região no centro-oeste
brasileiro); seu terceiro livro chama-se Ana Prudenciana, é sua primeira
e única investida na ficção. Recebi-o da própria autora há mais ou menos
três anos, ocasião em que passei por Jataí. Como naquele momento tinha
muitos compromissos com a universidade, deixei o livro de lado;
aguardava o momento oportuno para apreciá-lo. Qual não foi minha
surpresa quando o li recentemente.
Dona Eloá, como é conhecida na cidade, é exímia contadora de histórias.
Lembrei-me, ao ler seu livro, do texto "O narrador, considerações sobre
a obra de Nikolai Leskov", de Walter Benjamin, onde o filósofo discorre
sobre a arte de narrar e compara o trabalho do narrador ao de um
artífice. Citemos um trecho do ensaio: "a experiência que passa de
pessoa em pessoa é a fonte a que recorreram todos os narradores. E,
entre as narrativas escritas, as melhores são as que menos se distinguem
das histórias orais contadas pelos inúmeros narradores anônimos." No
texto, Benjamin aponta a narrativa como uma experiência coletiva, chega
a dizer: "quem escuta uma história está em companhia do narrador; mesmo
quem a lê partilha dessa companhia. Mas o leitor de um romance é
solitário". O filósofo distingue a narrativa próxima à oralidade da
narrativa de romance, classificando a primeira como experiência
coletiva, enquanto a segunda já teria perdido a mística do narrador oral
e refletiria a solidão do ser humano fragmentado, presente num gênero
que já não daria conta do todo. Não deixa de comparecer, em parte, na
formulação de Benjamin, ecos da Teoria do romance, do "jovem" Lukács;
mas isso é outra história.
O livro de Maria Eloá possui esse narrador em vias da oralidade, que, na
verdade, como acentuou o filósofo, encontra-se em extinção. Ana
Prudenciana recupera essa tradição que faz parte da literatura desde a
mais distante poesia épica.
O livro, em primeiro plano, apresenta uma narradora ouvinte, de quem não
sabemos o nome, uma mulher em viagem pelo interior, pelas fazendas,
alguém que se movimenta país adentro a recolher histórias. Hospeda-se
numa fazenda e, em duas noites, escuta da voz da velha Vitalina a
história do passado da fazenda, de Maria Imaculada e suas filhas, de Zé
Pedro e sua filha bastarda Ana Prudenciana, e tantas outras narrativas.
Vitalina não se cansa de narrar durante a noite inteira, sempre
escoltada pelas duas irmãs, semelhantes a ela e também idosas: mulheres
de outros tempos, que viveram praticamente em regime de escravidão. As
duas já ouviram o périplo muitas vezes, mas não deixam de demonstrar
prazer em ouvir uma vez mais.
Num pernoite, já quase ao amanhecer, quando todos se recolhem, inclusive
a narradora, sabemos de outra história contada por ela mesma, colhida
numa viagem a cavalo. É a vez de ouvirmos um velho peão que mergulha nas
reminiscências de um amor proibido vivido por Amaro, a emboscada para
matar o amante, sua reação e a consequente morte. A história é
contagiante.
O terceiro livro de Maria Eloá filia-se à tradição roseana. Na
literatura brasileira contemporânea praticamente não existem autores que
tenham tentado seguir a trilha desbravada por Guimarães Rosa. A
escritora de Jataí não teme percorrer esse caminho. Ela trabalha
artisticamente a linguagem falada e atinge alto nível. Eis dois trechos:
"Faz muitos anos, eu era ainda nova, passou por aqui um tal de Pedro
Matos, vendedor de tropa. Esse homem era dono da Fazenda da Barca, lá no
sertão do Uruquara. A tropa dele era famanã de boa, cavalos e burros.
Dessa Vez, o sô Eraque até comprou um alazãozão, cavalo bonito toda
vida, e um burrão rapé chamado Rompedor. O alazão ele deu de presente
para a dona Elísia, que o cavalo era manso de silhão e tinha uma marcha
macia que dava gosto. De noite, lá na sala, com aquele homem de fora
contando causos, a conversa estava animada.
"Amaro reagindo à emboscada:
"De repente, o Amaro apontou lá na janela de revólver apontado. E foi só
pêêêêi!... pêêêêi!... O Ribamar caiu de costas para dentro do curral sem
ter tido tempo de dizer um ai. O Aristides caiu de bruço dentro do
pátio, com um jabro na cabeça, e ficou lá, estrebuchando no meio de u'a
moita de maravilha vermelha. O Adão Cabaça, O Amaro ficou com dó de
atirar. Conhecia a besta, sabia que ele tinha um manadão de filhos
pequenos e de filhas-moças. Pobre que só vendo, mal dava conta de dar o
que comer pr'aquela turma."
Nos dias de hoje, alguns estudiosos de literatura e até mesmo alguns
escritores acham impossível escrever romances como nos "velhos tempos";
dizem que é preciso experimentar novos formatos, opinam que a narrativa
"tradicional" está esgotada. Na verdade, Dona Eloá vem provar que a boa
literatura está mais viva do que nunca e que, em suas mãos, atinge ainda
maior vulto.
O livro é de edição da autora, com participação de um incentivo cultural
da Prefeitura de Jataí. No entanto, ainda assim, Dona Eloá conseguiu
editar Ana Prudenciana fazendo muito sacrifício.
Seria bom que algum editor de São Paulo ou do Rio olhasse com mais
cuidado a literatura feita fora dos grandes centros. Será um grande
prejuízo para a cultura brasileira caso livros como o de Dona Eloá caiam
no esquecimento.
Ainda é tempo de dar valor a quem merece. Maria Eloá de Souza Lima é uma
escritora de 86 anos.
Contatos com a
autora: Av. Benjamin Constant 1041 - CEP. 75800-000 Jataí - GO. Tel.
(64) 36312681.
Ana Prudenciana
Maria Eloá de Souza Lima
Editora do autor, 262 páginas
Incentivo cultural: Prefeitura de Jataí
Haron Gamal
professor de literatura e doutorando em literatura brasileira pela
UFRJ |